domingo, 5 de abril de 2026

Becky S. Korich - Telas, o maior desafio para os pais, FSP

 Becky S. Korich

Advogada, escritora e dramaturga, é autora de 'Caos e Amor'; colunista da Folha

Mudei a tática em casa. Não limito mais horário máximo de joguinhos e redes. Agora a regra é o tempo mínimo sem telas. A meta: que não sobre mais de duas horas por dia.

Tudo começou no último domingo, em que meu filho passou praticamente o dia inteiro diante de uma tela. Foi um dia invertido: a tela era a atividade principal. Nos intervalos ele descansava dela. Chovia. Eu tinha muito trabalho. Ameacei tirar. Ele voltava. Deixei.

As justificativas eram plausíveis. "Não tem nada pra fazer". "Meus amigos também estão jogando". "Não tenho tempo durante a semana". E chovia. A lógica fechava. Fui flexibilizando, alargando o limite. Não por convicção, mas por exaustão.

Na madrugada veio a cobrança.

Uma dor de cabeça que não cabia nele.

Crianças olham fixamente para telas de celular, que cobrem seus rostos
Crianças olham fixamente para telas de celular e tablets - Seventyfour 18.ago.23/Adobe Stock

Ele chorava, se contorcia, rezava para conseguir dormir como se o sono fosse o único lugar onde ainda fosse possível escapar. Os remédios de casa não adiantaram. Fomos parar no hospital e ali ficamos por dois dias até controlar a dor.

Usaram medicações fortes, fizeram exames. Descartaram tudo. Nenhuma lesão, nenhuma infecção, graças a Deus.

O diagnóstico: enxaqueca. Causa provável: excesso de tela.

A pior coisa para uma mãe é quando um filho adoece. E fica ainda mais sofrido quando, no fundo, suspeita que teve alguma participação naquilo.

O que mais assusta é que não houve descuido evidente, houve uma sequência aparentemente inocente de pequenas concessões.

Hoje, não é só febre alta, crise de asma, um tombo que leva uma criança ao hospital. Existe um adoecimento que começa dentro, sem sinais na pele nem no termômetro.

As big techs sabem que crianças são as mais vulneráveis –e investem nelas. Sabem usar não só o conteúdo, mas a arquitetura para criar dependência. Quanto mais tempo ali, melhor para o negócio. Nossos filhos são os ratos de laboratório.

Recentemente, um júri da Califórnia decidiu, com base em provas, que a Meta (FacebookInstagram e WhatsApp) e a Alphabet (Googledesenvolveram produtos intencionalmente viciantes para crianças.

O Relatório Mundial da Felicidade de 2026, divulgado em março, aponta uma queda significativa no bem-estar dos jovens, em escala suficiente para virar estatística, e identifica o papel das redes sociais como um dos fatores determinantes para esse declínio.

Precisamos de mais evidências?

Não sei se devo processar alguma big tech. Também não sei se meu filho deveria me processar por essa crise de enxaqueca.

Elas seguem lucrando. Nós seguimos deixando.

Porque funciona. Porque ocupa. Porque resolve o curto prazo com uma eficiência que nenhuma outra coisa oferece. Porque não temos moral para impedir, olhando, nós mesmos, para as nossas telas.

"Vai fazer outra coisa", eu digo.

Ele se perde.

O que é "outra coisa", quando tanta coisa já foi substituída?

Essa é a parte mais difícil: não foi a tela que entrou. Foi o resto que, aos poucos, foi saindo.

Quero que meu filho redescubra, no "não tem nada para fazer", o quanto cabe nesse nada. Que ele perceba que é no vazio que as coisas começam. Que ele não precise estar sempre estimulado para vibrar.

É pedir demais, eu sei, mas a dor ainda está fresca na cabeça dele. E, pelo menos até agora, não é a mãe que impõe o limite, é o corpo.

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