O que será que a misandria, a tartaruga Jonathan e a cantora Marina Lima têm em comum? Os três acabaram por ilustrar tensões do jornalismo feito a partir das redes —ou para elas. Enquanto os jornais esperam o arrebatamento via IA, parecem deixar de lado velhas questões com as plataformas de conteúdo.
Um dos problemas é a percepção de que um jornal não oferece nada que as próprias redes sociais já não forneçam "de graça" (na verdade, em troca de muita coisa, mas essa é outra discussão). O mais grave é quando quem assina o jornal paga por "conteúdo" distorcido, em geral produzido no ritmo emocionado das redes.
Na Folha, o texto "Discurso de misandria, o ódio contra homens, cresce na internet" carregava traços problemáticos dessa produção hiperpersonalizada.
As questões começavam no título ambíguo, que poderia indicar o crescimento do discurso contra homens, mas que na prática desqualificava essa percepção. O texto, produzido originalmente pela DW Brasil e replicado pelo jornal, se resumia à transcrição de um vídeo de menos de dois minutos feito para as redes.
O parceiro de conteúdo obviamente publica o que quiser, mas é do jornal a responsabilidade de colocar no ar algo em desacordo com seus próprios parâmetros.
O material reproduzia a visão de apenas uma fonte, o que caberia mais num artigo de opinião, não em reportagem. A ideia de misandria crescente, que anima comunidades online de homens ressentidos, segundo o texto, seria uma "narrativa". A questão, simplificada, era encerrada sem espaço para o contraditório, mesmo num contexto inflamado pelo projeto de lei sobre misoginia.
Caberia ao jornal tentar ao menos captar como e em que medida essas comunidades se organizam contra o que percebem como misandria. Sem isso, a Folha repete erros de avaliação já cometidos com outros fenômenos.
O caso da tartaruga Jonathan parece piada perto da gravidade da discussão sobre violência. Mas é fruto de problemas parecidos, que nascem de falta de checagem e ausência de ceticismo. E, nesse caso, com ajuda do 1º de abril.
A BBC e outros, como a Folha, caíram na armadilha de um perfil no X/Twitter que se passava pelo veterinário Joe Hollins. Na vida real, ele cuida de Jonathan, a tartaruga mais velha do mundo.
O perfil fake anunciou a morte da tartaruga junto com um pedido de doação de criptomoedas. Quando a BBC colocou a história no ar, turbinou a credibilidade do malandro, que repostou a notícia. No meio da comoção, quem desconfiava era ignorado.
"O Joe verdadeiro não está no X, e a conta [golpista] está baseada nos EUA e conectada via App Store do Brasil. Jonathan aparentemente está vivo e bem", avisou ainda na rede a repórter do The Guardian Helena Horton. Mais tarde, com apuração completa e uma foto da tartaruga como "prova de vida", ela publicou um dos primeiros desmentidos. A Folha deu Erramos.
O verbete "Morte" no capítulo sobre prática jornalística do Manual da Redação orienta: "Dado o efeito especialmente danoso de um erro jornalístico nessa circunstância, nunca publique notícia sobre morte de alguém antes de obter confirmação inquestionável". Nada impede que o bom senso seja aplicado às tartarugas.
Para Jonathan e seus fãs, o final redivivo foi feliz. Para os jornais, nem tanto. Mesmo com duas décadas de convívio com as redes, ainda há defesas a serem reforçadas. Em ano eleitoral, mais ainda.
Já no caso de Marina Lima, a polêmica-bumerangue nasceu na Folha, cresceu nas redes e voltou ao jornal. A crítica do novo disco da cantora na Ilustrada foi recebida com indignação. Ela mesma postou: "Q pena. Q escroto". Vieram outras críticas à crítica.
Um leitor observou a diferença entre os títulos da crítica no papel/Edição Folha e na internet. No site, que bem ou mal integra o ecossistema da indignação de resultados ("rage bait"), o título era "Novo disco de Marina Lima, sem ideias sólidas, é o pior de sua carreira". O do papel, concluído depois de horas de polêmica online, era "Estrutura frágil faz de novo álbum o menos fulgurante de toda a obra de Marina Lima".
O "rage bait" já existia na Ilustrada bem antes da internet e teve vários nomes. Pepe Escobar foi um dos mais emblemáticos deles. Uma crítica a bandas de SP, em 1984, rendeu protesto dos músicos na Redação e tentativa de agressão. A fama de má passou a perseguir a Ilustrada e a ser perseguida por ela, mas já descansava no passado remoto e offline.
No caso de 1984, o jornal promoveu um evento para debater a "cena". No de agora, escolheu publicar outra crítica, mais positiva.
Não é a primeira vez que a Folha faz avaliações diferentes sobre um mesmo produto. Quando vem da parte ofendida, costuma ser dada como réplica. Nesse caso, o caminho foi diferente. "Oferecemos à cantora a possibilidade de ela escrever uma réplica, dado o teor da crítica publicada, mas ela não quis. Achamos, porém, que valia uma nova avaliação", explica o editor Silas Martí.

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