domingo, 5 de abril de 2026

Álvaro Machado Dias Salto gigante no tratamento de Parkinson contrasta com atraso de mentalidade, FSP

 Parkinson é a doença neurodegenerativa que mais cresce no mundo. As causas empilham predisposição genética, contaminantes ambientais, de agrotóxicos a solventes industriais, e o envelhecimento, que reduz a capacidade do organismo de manter seu equilíbrio interno.

Muita gente associa a doença a tremores, mas na minha experiência, a maioria dos pacientes com esse tipo de queixa sofre de crises de ansiedade, não de Parkinson. A doença real costuma se anunciar de formas insuspeitas: perda de olfato, constipação, dificuldade para iniciar a micção, rigidez muscular, entre outros.

Há evidências de que, em muitos casos, o processo começa no sistema nervoso entérico, a rede de neurônios do intestino, e só depois alcança o cérebro, onde a destruição dos neurônios que produzem dopamina instala o quadro motor clássico. Nenhum tratamento até hoje conseguiu repor esses neurônios. Agora, o Japão mudou esse cenário.

Mão envelhecida repousa sobre o peito de uma pessoa vestindo blusa preta de renda com decote em gota.
Idosa diagnosticada com doença de Parkinson em Buenos Aires - Juan Mabromata - 29.ago.25/AFP

O procedimento recém-aprovado envolve a transferência de células-tronco que irão se converter em neurônios dopaminérgicos. Não leia como cura. A patologia afeta outros circuitos além dos da dopamina; as células-tronco não são implantadas na área em que os neurônios mais morrem, mas na que recebe suas projeções; as novas células não se conectam com a mesma desenvoltura das nativas; e não temos um anticorpo capaz de impedir que a proteína tóxica que matou as originais infecte suas substitutas após alguns anos. Ainda assim, esse é o maior salto no tratamento da doença em décadas.

A ideia de transplantar neurônios para o cérebro de pacientes com Parkinson existe desde os anos 1980. O culpado mais óbvio para essa demora é a indústria farmacêutica, que tem tudo a perder com uma terapia restaurativa como aprendemos no cinema engajado. Só que a grande vedete das neurociências clínicas das últimas décadas são as próteses cerebrais, como as que Elon Musk está construindo pela Neuralink, que igualmente mandam a farmacologia às favas.

Existe uma razão profunda para apostarmos como sociedade em enfiar hardwares no cérebro e em medicações de eficácia conhecidamente limitada e declinante. Um eletrodo estimula uma região, um chip decodifica um sinal, uma droga compensa uma molécula ausente: são intervenções que a ciência sabe projetar, testar e controlar.

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Uma célula-tronco implantada precisa sobreviver, migrar, formar sinapses com neurônios que ela não conhece e produzir dopamina por conta própria. Não se programa isso; criam-se condições e confia-se no que o organismo faz com elas, o que para muitos soa como bobagem.

A ciência mainstream se baseia na premissa de que os recursos médicos são acessórios para a vida. O paciente ganha um diagnóstico e com ele um passe para um acompanhamento a ser encerrado no dia da sua morte. A IA generativa obedece à mesma lógica: um copiloto surgido há dois anos e que hoje incorporamos como parte da nossa rotina até o último dos nossos dias, o que talvez seja positivo, mas no mínimo mereceria uns cinco minutos de reflexão.

Estamos longe de concluir o mapeamento das conexões cerebrais humanas. O que parece mágico é a percepção de que isso não é necessariamente essencial, desde que a gente saiba oferecer ao organismo as amostras certas de vida para que ele se restabeleça.


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