terça-feira, 9 de junho de 2026

João Pereira Coutinho - Aqui estão propostas para tornar o futebol menos chato e mais perturbador, FSP

 Futebol é chato? Estranha pergunta essa, às vésperas de uma Copa do Mundo. Mas a revista The Economist tem alguma razão: às vezes, é. Não seria melhor introduzir algumas mudanças para tornar o jogo mais excitante?

A revista propõe algumas. E algumas são boas. Vendar os jogadores antes do escanteio, por exemplo. Escolher um torcedor da arquibancada para jogar pelo seu time durante 10 minutos. Permitir duas bolas em campo por curtos períodos.

Ou, então, a minha favorita: ir retirando do goleiro as partes do corpo que ele pode usar para defender o gol à medida que o tempo passa. Se a partida vai para a prorrogação, só lhe sobra o rosto.

O jogo ficaria mais divertido, admito. Mas, para almas mais metafísicas, ficaria mais relevante? Mais perturbador? Não creio.

Era o italiano Arrigo Sacchi quem dizia: "O futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes da vida". É pouco ambicioso. Minhas propostas para melhorar o jogo, que defendo há vários anos, vão no sentido de tornar o futebol a coisa mais importante entre as coisas mais importantes.

Aliás, aqui entre nós, cheguei a compartilhar as minhas inovações com um antigo técnico da seleção portuguesa. O homem me ouviu em silêncio e, visivelmente perturbado, afastou-se sem dizer uma palavra.

Ainda hoje não sei se ficou bem ou mal impressionado. O leitor que decida:

Esfinge ocupando o lugar do goleiro, diante do gol
Angelo Abu/Folhapress

1ª inovação – O impedimento moral

Todos conhecemos o impedimento tático. Deveria existir o moral: o gol é anulado se o atacante, podendo resolver a jogada com dignidade, escolhe uma opção que torna o futebol espiritualmente pior.

Dou exemplos: marcar o gol de rebote; humilhar o adversário com paradinhas ou provocações; aproveitar de forma indevida o esforço de outro colega, tocando na bola quando já não é preciso.

Em resumo: não basta marcar o gol; é preciso merecê-lo.

2ª inovação – O inimigo interno

Antes do jogo, um jogador de cada time é sorteado em segredo. Durante a partida, a qualquer momento, ouve-se um sinal sonoro. Nesse instante, os dois jogadores sorteados se revelam, trocam de camisa e passam a jogar pelo time adversário até o apito final.

O infiltrado tem de jogar lealmente pelo seu novo time. Se não o fizer, optando pela sabotagem, simulação de incompetência ou excesso de nacionalismo, seu time de origem será punido com um gol a cada 15 minutos, até que o jogador compreenda que a traição também exige profissionalismo.

3ª inovação – O Rubicão

Sempre que um jogador em posse de bola cruza a linha do meio-campo, o seu time fica proibido de recuar a bola para o seu próprio campo durante aquele lance. A travessia implica compromisso ofensivo irrevogável.

Se a bola voltar para trás, o árbitro assinala infração por recuo desonroso.

4ª inovação – O goleiro esfíngico

Antes do pênalti, o goleiro se aproxima do cobrador e lhe sussurra uma adivinha, um paradoxo ou um problema metafísico. O cobrador tem cinco minutos para resolver, sem ajuda externa. Só então pode bater.

Se não souber, pode cobrar mesmo assim, mas será obrigado a indicar ao goleiro o lado para onde vai chutar.

Moral da história? Quando você não usa a cabeça, só lhe resta a força.

5ª inovação – Interregno, ou "cláusula Hobbes"

Uma vez por jogo, durante 10 minutos, o árbitro é obrigado a deixar o campo. O jogo continua normalmente, mas sem árbitro.

As regras continuam a existir, mas dependem exclusivamente da vontade dos jogadores: as faltas só existem se o jogador que as cometeu admitir; o impedimento passa a depender da consciência do atacante; a posse da bola no arremesso lateral depende do acordo entre os times; etc.

Caberá aos jogadores, sem o árbitro, optar pela cooperação ou pela anarquia.

6ª inovação – O eterno retorno

O futebol deve aceitar o recurso desesperado contra o destino. Cada time que sofre um gol pode, uma vez por jogo, invocar o Eterno Retorno. O lance que originou o gol é então repetido desde o momento da recuperação de bola, do passe decisivo ou de outro ponto fixado pelo VAR metafísico. Todos os jogadores devem estar nas mesmas posições do lance original.

Se o time atacante não voltar a marcar, o primeiro gol é anulado. Se voltar a marcar, o gol vale por dois.

7ª inovação – Festejos estoicos

O gol será anulado sempre que o atacante o festeje.

Inteligência de dados antecipa falta de água no campo, Revista Pesquisa Fapesp

 Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – Antes mesmo de o sol nascer, o produtor enfrenta um dilema desgastante: a lavoura clama por água, mas a decisão de acionar o sistema exige um sacrifício. Ele precisa percorrer quilômetros até a casa de bombas, sem qualquer garantia de que o rio terá vazão suficiente para sustentar a operação. É uma jornada cega e solitária, em que o risco de descobrir, tarde demais, que o manancial não suportará a demanda, é uma realidade que consome tempo e recursos preciosos.

A solução identificada pela startup paulista Spectrum, apoiada pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP, para auxliliar os produtores agrícolas a enfrentar situações como essa foi expandir a aplicação de uma plataforma de internet das coisas (IoT), batizada PalmaFlex, que lançou em 2019 para monitorar a umidade do solo. O sistema foi desenvolvido sob o comando de Adilson Chinatto e Cynthia Junqueira, engenheira eletricista com mestrado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A premissa do novo sistema, batizado de PalmaFlex Total, é transformar medições dispersas em informações práticas. A tecnologia combina sensores instalados no solo, comunicação de dados de longo alcance via rádio — capaz de cobrir áreas de até 3 mil hectares — e modelos de inteligência artificial para estimar a disponibilidade hídrica. Trata-se de uma solução robusta, de baixo custo de manutenção e alta conectividade em áreas remotas.

A plataforma ainda permite monitorar variáveis como vento, radiação solar e temperatura, além de detectar falhas em motores.

Foco no manancial

Mananciais são fontes naturais de água, como córregos, riachos e rios. Em grandes propriedades produtoras de grãos, o ponto de captação geralmente é um afluente de menor volume, que perde vazão rapidamente em meses de estiagem — variando conforme o regime pluviométrico.

A maioria das grandes fazendas utiliza o pivô central, sistema que exige pressão constante na bomba para irrigar grandes áreas circulares. Quando a vazão é insuficiente, o equipamento não atinge a pressão mínima e pode desligar automaticamente. “Isso é mais que desperdício de tempo: uma irrigação irregular prejudica o desenvolvimento da lavoura”, explica Chinatto. Em culturas como soja e milho, falhas em momentos críticos podem comprometer a safra inteira.

Com a ferramenta da Spectrum, o profisisonal responsável pela decisão de irrigação obtém uma previsão da vazão. A plataforma indica se há água suficiente para operar o sistema ou se é preferível aguardar, considerando, por exemplo, a previsão de chuvas nas cabeceiras da bacia.

Essa capacidade preditiva influencia decisões estratégicas, como o momento ideal para ligar os pivôs, a viabilidade de investir em novos reservatórios, o ajuste na janela de plantio ou a escolha por culturas menos dependentes de irrigação. “É uma estratégia baseada em dados, semelhante à que produtores já utilizam para chuvas”, destaca Junqueira.

A segunda função da tecnologia consiste na análise de dados públicos de pluviometria da bacia hidrográfica a montante (região superior da bacia, responsável por abastecer o rio), cruzados com imagens de satélite e previsões meteorológicas. Como essa área elevada dita o fluxo, o volume de chuvas registrado nela impacta diretamente a vazão a jusante — o trecho do rio onde se localiza o sistema de captação — com dias de antecedência..

Com base nisso, o sistema oferece previsibilidade de até 16 dias, permitindo que o produtor programe a irrigação com precisão. A expectativa é ampliar esse horizonte conforme os modelos evoluem.

Esse conjunto de informações permite calcular o balanço hídrico — a diferença entre a água que entra (chuvas/irrigação) e a que sai (evapotranspiração) —, essencial para determinar o manejo preciso das culturas.

Resultados reais

Junqueira destaca ainda o valor da ferramenta para a renovação da outorga — autorização governamental de uso da água, renovada a cada cinco anos. Dados históricos de vazão registrados no PalmaFlex Total fornecem evidências fundamentais para negociações sobre a disponibilidade hídrica real da propriedade.

Além disso, os dados ajudam a qualificar a imagem da agricultura irrigada. Embora o setor seja frequentemente visto como responsável pelo esgotamento hídrico, fazendas com práticas conservacionistas podem, na verdade, aumentar a infiltração e a recarga dos mananciais. “Existem propriedades que, graças a essas técnicas, agem como geradoras de água”, diz Chinatto. A plataforma permite documentar esse fenômeno, abrindo caminho para pleitear bonificações ambientais.

Expansão acelerada

“O potencial é vasto, especialmente diante das mudanças climáticas”, avalia Chinatto. A distribuição das chuvas tornou-se mais irregular, com secas prolongadas intercaladas por eventos extremos.

O projeto também aponta para aplicações urbanas: a mesma lógica pode ser usada pela Defesa Civil para monitorar pequenos rios que cortam cidades, antecipando enchentes e emitindo alertas precoces. Assim, uma tecnologia desenvolvida para garantir a segurança alimentar no campo prepara-se para proteger também as áreas urbanas.

Plano da China por autossuficiência alimentar ameaça o agro brasileiro, FSP

 

São Paulo

O agronegócio brasileiro, um dos pilares da estabilidade econômica do país, enfrenta hoje uma ameaça estrutural inédita, algo que pode redesenhar o comércio global nas próximas décadas.

O Brasil tem uma dependência crítica e concentrada do mercado chinês, que é o destino de 71% das exportações nacionais de soja e 54% da carne bovina. Sozinho, o país fornece mais de 60% de toda a oleaginosa importada por Pequim e cerca de 40% de sua carne.

No entanto, a China decidiu que essa dependência é um risco intolerável para sua segurança nacional e acionou um plano para reduzir suas compras externas. As medidas estão delineadas no recém-publicado 15º Plano Quinquenal chinês 2026-2030.

Três máquinas agrícolas colhem em campos secos e organizados em linhas paralelas. Ao fundo, casas residenciais e vegetação delimitam a área rural, com montanhas e céu claro ao horizonte.
Máquinas agrícolas trabalham durante colheita na vila de Yantang, na província de Zhejiang, no leste da China - Yao Haixiang - 28.mai.26/Xinhua

A projeção central é que a demanda chinesa por importação de soja caia 25% até 2030, o que representa um corte de 23,5 milhões de toneladas. O volume equivale a quase um terço de tudo o que o Brasil exportou para a China em 2024.

Sem outros compradores globais com escala suficiente para absorver tamanha oferta, o Brasil enfrenta o risco real de uma queda simultânea nos volumes e nos preços das commodities. Isso pode desvalorizar terras recém-convertidas e infraestruturas logísticas, que perderiam viabilidade econômica.

Uma mudança profunda na estratégia chinesa impulsiona essa transformação: o país passou a aplicar no campo o mesmo "manual industrial" que lhe garantiu a liderança global em painéis solares e veículos elétricos.

No 15º Plano Quinquenal, a segurança alimentar foi elevada à classificação de prioridade estratégica, equiparada à segurança energética e financeira.

O objetivo de Pequim é reverter também um déficit comercial agrícola de US$ 124,5 bilhões (R$ 631,2 bilhões) mediante uma doutrina de "Alimentação Expandida", com foco em resiliência soberana e autonomia tecnológica.

A China reconhece que a autossuficiência absoluta é impossível pela escassez de terra e água —possuindo apenas 8% das terras aráveis do mundo para 15% da população—, mas busca uma "dependência segura" por meio da diversificação agressiva e inovação.

"Negar o tamanho dessas transformações pode ser muito nocivo, e não vemos um sentido de urgência no Brasil para enfrentar as novas diretrizes", afirma Patricia Ellen, sócia e CEO no Brasil da Systemiq, consultoria internacional presente em países como Reino Unido, Alemanha e Indonésia que esmiuçou em recente relatório ("China’s Food Future") os impactos dessas mudanças.

Para Ricardo Abramovay, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, embora a propriedade de terras na China seja estatal, há forte estímulo a investimentos privados e inovadores —como cultivos e produção de proteína animal em estruturas verticais e próximas às cidades.

O plano prevê acesso a capital de baixo custo de bancos estatais. Inclui também subsídios direcionados e financiamento contínuo em pesquisa e desenvolvimento. Esse conjunto de medidas reduziria o risco nos estágios iniciais e o custo de fracassos.

Além disso, permitiria que as empresas investissem em escala antes que a viabilidade comercial fosse comprovada —acelerando curvas de aprendizado e viabilizando a expansão da capacidade produtiva.

"Os líderes chineses têm convicção, pelo passado do país, de que um bom governo é o que garante boa alimentação. Querem replicar na área, agora que os chineses têm mais renda para comer melhor, o que realizaram no setor industrial", afirma Abramovay.

De 1959 a 1961, a China enfrentou a chamada Grande Fome, causada pela combinação de fatores climáticos com as políticas econômicas e agrícolas fracassadas do programa "Grande Salto Adiante", de Mao Tsé-Tung (1893-1976). Dezenas de milhões de pessoas morreram por inanição, em uma das maiores crises de fome da história mundial.

"As metas são concretas: produção de 725 milhões de toneladas de grãos por ano, mais que o dobro da produção brasileira; expansão de terras de alto padrão com irrigação e mecanização; sementes soberanas com biotecnologia em larga escala; mais seguro e crédito, e melhor infraestrutura no campo", analisa Marcos Jank, coordenador do Núcleo Insper Agro Global.

Ele afirma, no entanto, que as projeções da Systemiq com base nos planos chineses podem ser vistas com ceticismo. "Sistemas agroalimentares são governados por biologia, agronomia e cultura, e são muito mais resistentes à transformação rápida do que painéis solares, baterias e veículos elétricos, setor em que o sucesso chinês foi enorme."

Jank pondera que, enquanto o potencial de crescimento da oferta agrícola brasileira é enorme, o da China é limitado pela escassez de terras férteis e pelas restrições severas no uso de água. "Mas a prudência nos recomenda buscar outros mercados", diz.

Procurado, o Ministério da Agricultura e Pecuária não comentou as novas diretrizes chinesas. A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso, estado líder na produção de grãos, também não se manifestou.

Os avanços tecnológicos que sustentam a guinada chinesa são acompanhados de números rigorosos. O governo acionou o plano "Ação de Capacidade de 50 Milhões de Toneladas", que impõe metas de produtividade estritas às províncias para aumentar a produção doméstica de grãos até 2030.

Na área de biotecnologia, a China trata a segurança de sementes com a mesma importância estratégica dos semicondutores, aprovando a comercialização de variedades de milho e soja geneticamente modificados locais para elevar o rendimento por hectare entre 6% e 13%.

Outra frente decisiva é a reestruturação das fórmulas de ração animal. O governo determinou que a inclusão de farelo de soja caia de 14,5% para menos de 10% até 2030. A eficácia dessa medida já é visível em escala industrial: a gigante Muyuan Foods, maior produtora de suínos do mundo, reduziu sua inclusão de soja para apenas 5,7% em 2023, economizando 31 kg do grão por animal produzido.

Segundo Eduardo Martins, ex-presidente do Ibama e diretor-executivo do Grupo Associado de Agricultura Sustentável, a China tem primazia na produção de aminoácidos ("tijolos" que constroem proteínas). "Isso permite aumentar o valor proteico de suas rações, e os chineses estão em pleno processo de escalar os volumes para tornar seu uso economicamente viável", afirma.

A longo prazo, a China planeja deixar de ser o maior importador para se tornar um competidor global. Até 2040, o país projeta ser um exportador líquido de aves, laticínios, ovos e produtos aquáticos, forçando produtores tradicionais a enfrentar a concorrência chinesa.

Além disso, Pequim investe em biomanufatura, com bionegócios e proteínas alternativas (vegetais, fermentadas e cultivadas em laboratório) projetadas para atender de 35% a 55% da demanda doméstica por carne até 2050.

Cientistas chineses realizam experimentos com sementes e plantas na Universidade Agrícola de Sichuan, no sudoeste do país - 26.mai.2026/Xinhua

Nesse novo tabuleiro geopolítico, o agronegócio brasileiro ainda é considerado pela China como uma "garantia de subsistência real" a curto prazo, enquanto o agro dos EUA serve como "moeda de troca política".

No entanto, com o aumento da autossuficiência tecnológica, a China terá o poder de elevar exigências ambientais, demandando produtos livres de desmatamento e com rastreabilidade total, alinhando-se a padrões similares aos da União Europeia.