domingo, 24 de maio de 2026

Efêmeros, mas eternos, Ruy Castro ,FSP

 Eu sei, é besteira lutar contra a tecnologia —por que andar a pé se inventaram a roda?, dirão alguns—, mas não somos obrigados a aplaudir tudo, somos? Uma das coisas que a tecnologia aposentou há tempos, e de que poucos se deram conta, foram os flyers, aqueles volantes impressos anunciando o lançamento de um filme, a abertura de uma exposição, a estreia de uma peça. Eram panfletos coloridos que nos chegavam às mãos, cumpriam sua humilde função de nos informar e, em seguida, eram deixados de lado, esquecidos, jogados fora. Às vezes, anos depois, alguns ressurgiam dentro de um livro ou gaveta, e despertavam boas lembranças.

Os flyers eram pôsteres em miniatura. Reproduziam a programação visual do evento ou do objeto que anunciavam. Sua variedade gráfica era um show. Havia-os de inúmeros estilos, designs, cores, fontes, letterings, tudo no formato perfeito de um cartão-postal. Não quer dizer que, hoje, tenham deixado de existir. Continuam a ser produzidos, só que para o celular ou para o computador, chamados de "cards", e, assim que lidos, desaparecem no turbilhão de mensagens recebidas. Se, em papel, já eram uma mídia efêmera, agora nascem e morrem no espaço e quase ao mesmo tempo.

Há muitos livros ilustrados, luxuosos, pesados, de coffee table, dedicados aos pôsters. Aos flyers, nunca vi nenhum. E, se já tiverem sido feitos, qual foi o critério para selecioná-los? Por país, por época, por especialidade? Eu escolheria todas essas possibilidades.

Por acaso, e sem nenhuma intenção definida —apenas os achava bonitos e tinha pena de atirá-los fora—, dediquei-me nos últimos 30 anos a jogar numa caixa os flyers que recebia. Lotada aquela, providenciei outra. E outra. Há dias, vasculhando um armário, achei aquelas caixas com pilhas de flyers. Anunciavam livros, filmes, peças, shows, coquetéis, exposições e palestras que, nesses anos todos, já foram para o limbo.

Ou não. Revolvendo-os ao acaso naquelas caixas, era como se descobrisse uma eternidade em sua arte tão humilde e tão útil.

Apanhado de antigos flyers anunciando eventos artísticos e literários no Rio - Heloisa Seixas

Rainha da dependência química nos EUA se rende a psicodélicos, Marcelo Leite, FSP

 "Se eu não posso mudar minhas visões baseada em evidências, por que raios então fazer ciência?" Eis uma frase que jamais se ouviria no governo Jair Bolsonaro. Em meio ao descaso homicida com a pandemia, ninguém na Esplanada fazia ciência, estavam ocupados em desacreditar vacinas, vender cloroquina e dar um golpe.

Não que Donald Trump se saia pior em desumanidade, mas ao menos com terapias psicodélicas ocorre algum avanço por lá. Evidência disso é o cavalo de pau da autora daquela sentença, a médica conservadora Nora Volkow, que dirige o Instituto Nacional de Abuso de Drogas (Nida) dos EUA desde 2003.

Há dois anos, ela dizia ao boletim de saúde Stat ser improvável que o psicodélico ibogaína viesse a ser aprovado para dependência. Agora ela destaca que o composto da planta africana Tabernanthe iboga "está entre [os psicodélicos] mais poderosos em teste para psicoterapêutica", como relata o boletim Psychedelic Alpha, que publicou a palestra e uma entrevista com o editor Josh Hardman.

Nora Volkow dirige o Instituto Nacional de Abuso de Drogas (Nida) dos EUA - Hailey Sadler - 19.mar.24/NYT

A declaração de apoio partiu dela em palestra na reunião anual da Associação Psiquiátrica Americana (APA), realizada em São Francisco de 16 a 20 de maio. Um mês antes, Trump havia assinado ordem executiva mandando acelerar a pesquisa clínica com psicodélicos, com destaque para a ibogaína.

"Se você me dissesse anos atrás que eu estaria falando sobre psicodélicos [na reunião da APA], jamais acreditaria", disse Volkow ao abrir sua fala. "Nem nos meus sonhos mais loucos imaginaria estar aqui, incentivando todos a aprenderem por que essas substâncias são tão potencialmente interessantes para a psiquiatria."

A médica tem ligação peculiar com o México, país aonde vão veteranos de guerra dos EUA em busca de ibogaína para transtorno de estresse pós-traumático. Ela cresceu em Coyoacán, na casa em que foi assassinado Leon Trótski, seu bisavô, em 1940.

Volkow se abalou até Cancún, onde visitou a clínica Transcend, segundo ela um dos centros com maior reputação no uso de ibogaína. "Conheci pacientes lá que diziam ter sido curados, supostamente, de sua depressão e dependência. Fiquei impressionada com a forma como eles conduziam as coisas farmacologicamente, com a supervisão, a triagem dos pacientes e a maneira como realizavam a intervenção."

A czarina do Nida não se deixa entusiasmar, porém, com relatos anedóticos. Ela se apoia em dados, como os projetados em slides durante a palestra sobre longa abstinência de dependentes de álcool e tabaco após dose de psilocibina.

Ela não descarta efeito placebo nos bons resultados com psicodélicos. Diz ser óbvio que expectativas podem ser poderosas. No entanto: "Se um placebo produz aumento de 90% na satisfação com a vida, gostaria de saber o que torna esse placebo tão impactante!"

Espera-se a mesma curiosidade de psiquiatras brasileiros...

"Realmente compete a todos nós reconhecer que psicodélicos, embora antigos, representam uma classe de medicamentos completamente nova e transformadora na psiquiatria. Eles nos dão a oportunidade de revisitar o que já sabemos há muito sobre a importância da psicoterapia, mas de uma forma que pode ser acelerada e aprofundada."

Brasil, o país que abre mão do desenvolvimento, Ronaldo Lemos _FSP

 Nosso país dá aulas para o mundo sobre como abrir mão do desenvolvimento. O caso dos minerais críticos é um exemplo. Em 1940, chegou ao Brasil o russo Boris Davidovitch. Seu objetivo era explorar monazita nas areias de Guarapari (ES). Em um ano ele dominaria completamente esse mercado de forma predatória, deixando um rastro de destruição.

Davidovitch destruiu cerca de 70 km de praias, incluindo restingas. Montou uma operação de evasão fiscal em que vendia para si mesmo, jogando o preço e os impostos para valores irrisórios. Foi acusado de subornar juízes e desembargadores, de usar trabalho escravo e de continuar exportando clandestinamente mesmo quando suas atividades foram proibidas.

A imagem mostra uma grande área de mineração, com terrenos expostos e escavados. O solo é predominantemente de cor laranja e marrom, com algumas áreas de vegetação ao redor. Ao fundo, há montanhas e uma paisagem rural, com um céu claro e sem nuvens.
Instalações da mineradora Anglo American na cidade de Barro Alto, em Goiás - Pedro Ladeira - 21.ago.25/Folhapress

Em 1954 o prefeito de Guarapari lhe deu uma bofetada na cara. Seu sucessor declarou: "Nasci e me criei aqui. Nunca vi esse homem fazer qualquer coisa em benefício dessa terra". Em 1956, foi aberta uma CPI onde ele foi intimado a depor.

Tudo isso não serviu para nada. A predação ao Brasil lhe rendeu US$ 227 bilhões. Ele morreu bilionário em Paris em 1960. Após sua morte, seus funcionários enterraram o maquinário da empresa na areia e queimaram todos os documentos.

O que sobrou de monazita extraída em Guarapari foi levada para o bairro do Brooklin em São Paulo, processada pela Orquima e, depois de 1966, pela estatal Nuclemon. Depois da vergonha da monazita, o Brasil finalmente conseguiu dominar boa parte da cadeia de separação das terras raras. Era uma capacidade estratégica rara no mundo naquele momento. Essa capacidade foi desmantelada a partir de 1990 e o que sobrou para o país foram 11 toneladas de resíduo radioativo, apelidado de "Torta 2". Essa "torta" foi enviada para Caldas (MG). E lá se encontra até hoje.

A monazita é uma das principais fontes de terras raras do planeta, incluindo o elemento radioativo tório, usado para fazer urânio-233. O problema é que ao ser exportada de forma bruta, seu valor é de banana: menos de US$ 10 por quilo. Com um mínimo de processamento, que o país não consegue mais fazer, o valor aumenta dez vezes: US$ 100 o quilo. Na sua forma final (óxido de térbio) o valor aumenta para US$ 1.000 o quilo.

Analisar a história da exploração da monazita no Brasil revela o tamanho do descaso do país com o desenvolvimento.

A monazita brasileira é hoje cobiçada no mundo todo por causa das terras raras. Só que, como toda a capacidade de processamento local foi perdida, o valor agregado é todo gerado no exterior. E o mais irônico: após décadas sem vender monazita bruta por conta da vergonha do passado, o Brasil voltar a exportar monazita bruta nesse ano a partir do Rio de Janeiro, repetindo mais uma vez a história.

O país fica com os buracos, e quem a compra e processa fica com os bilhões de valor agregado. Tudo isso poderia não ser assim. O país teve vozes na história que buscaram refundar nossa política mineral, como o almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, o próprio Juscelino Kubitschek ou o professor Diógenes Moura Breda, da Universidade Federal de Uberlândia. Seus artigos recentes demolem a lei sobre terras raras em tramitação no Congresso Nacional, que ele chama de "erro estratégico". Seus escritos merecem atenção.