Futebol é chato? Estranha pergunta essa, às vésperas de uma Copa do Mundo. Mas a revista The Economist tem alguma razão: às vezes, é. Não seria melhor introduzir algumas mudanças para tornar o jogo mais excitante?
A revista propõe algumas. E algumas são boas. Vendar os jogadores antes do escanteio, por exemplo. Escolher um torcedor da arquibancada para jogar pelo seu time durante 10 minutos. Permitir duas bolas em campo por curtos períodos.
Ou, então, a minha favorita: ir retirando do goleiro as partes do corpo que ele pode usar para defender o gol à medida que o tempo passa. Se a partida vai para a prorrogação, só lhe sobra o rosto.
O jogo ficaria mais divertido, admito. Mas, para almas mais metafísicas, ficaria mais relevante? Mais perturbador? Não creio.
Era o italiano Arrigo Sacchi quem dizia: "O futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes da vida". É pouco ambicioso. Minhas propostas para melhorar o jogo, que defendo há vários anos, vão no sentido de tornar o futebol a coisa mais importante entre as coisas mais importantes.
Aliás, aqui entre nós, cheguei a compartilhar as minhas inovações com um antigo técnico da seleção portuguesa. O homem me ouviu em silêncio e, visivelmente perturbado, afastou-se sem dizer uma palavra.
Ainda hoje não sei se ficou bem ou mal impressionado. O leitor que decida:
1ª inovação – O impedimento moral
Todos conhecemos o impedimento tático. Deveria existir o moral: o gol é anulado se o atacante, podendo resolver a jogada com dignidade, escolhe uma opção que torna o futebol espiritualmente pior.
Dou exemplos: marcar o gol de rebote; humilhar o adversário com paradinhas ou provocações; aproveitar de forma indevida o esforço de outro colega, tocando na bola quando já não é preciso.
Em resumo: não basta marcar o gol; é preciso merecê-lo.
2ª inovação – O inimigo interno
Antes do jogo, um jogador de cada time é sorteado em segredo. Durante a partida, a qualquer momento, ouve-se um sinal sonoro. Nesse instante, os dois jogadores sorteados se revelam, trocam de camisa e passam a jogar pelo time adversário até o apito final.
O infiltrado tem de jogar lealmente pelo seu novo time. Se não o fizer, optando pela sabotagem, simulação de incompetência ou excesso de nacionalismo, seu time de origem será punido com um gol a cada 15 minutos, até que o jogador compreenda que a traição também exige profissionalismo.
3ª inovação – O Rubicão
Sempre que um jogador em posse de bola cruza a linha do meio-campo, o seu time fica proibido de recuar a bola para o seu próprio campo durante aquele lance. A travessia implica compromisso ofensivo irrevogável.
Se a bola voltar para trás, o árbitro assinala infração por recuo desonroso.
4ª inovação – O goleiro esfíngico
Antes do pênalti, o goleiro se aproxima do cobrador e lhe sussurra uma adivinha, um paradoxo ou um problema metafísico. O cobrador tem cinco minutos para resolver, sem ajuda externa. Só então pode bater.
Se não souber, pode cobrar mesmo assim, mas será obrigado a indicar ao goleiro o lado para onde vai chutar.
Moral da história? Quando você não usa a cabeça, só lhe resta a força.
5ª inovação – Interregno, ou "cláusula Hobbes"
Uma vez por jogo, durante 10 minutos, o árbitro é obrigado a deixar o campo. O jogo continua normalmente, mas sem árbitro.
As regras continuam a existir, mas dependem exclusivamente da vontade dos jogadores: as faltas só existem se o jogador que as cometeu admitir; o impedimento passa a depender da consciência do atacante; a posse da bola no arremesso lateral depende do acordo entre os times; etc.
Caberá aos jogadores, sem o árbitro, optar pela cooperação ou pela anarquia.
6ª inovação – O eterno retorno
O futebol deve aceitar o recurso desesperado contra o destino. Cada time que sofre um gol pode, uma vez por jogo, invocar o Eterno Retorno. O lance que originou o gol é então repetido desde o momento da recuperação de bola, do passe decisivo ou de outro ponto fixado pelo VAR metafísico. Todos os jogadores devem estar nas mesmas posições do lance original.
Se o time atacante não voltar a marcar, o primeiro gol é anulado. Se voltar a marcar, o gol vale por dois.
7ª inovação – Festejos estoicos
O gol será anulado sempre que o atacante o festeje.


